Uma História de Talento

Esta história começou para 37 jornalistas no dia 7 de fevereiro de 2011 e não tem previsão de acabar!
Uma "História Viva" que se construiu a cada dia, sempre vai deixar saudade e reuniu num mesmo endereço da rua Pedro Ivo, no centro de Curitiba, o eco de sotaques vindos do interior do Estado, Santa Catarina, São Paulo, Pará, Amapá, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Estes são os Talentos Jornalismo GRPCOM 2011

sábado, 30 de abril de 2011

Perfil de Talento – Henrique Moretti

Henrique é um garoto sábio: estuda muito e muito sabe. O apelido oligárquico – ou a carinhosa abreviatura Oliga – foi uma das palavras que mais fizeram parte do vocabulário dos talentos na primeira fase do curso. Vindo de São Paulo, Henrique sempre demonstrava interesse em política, economia e ideias liberais.

Essa entrevista revela muito do discreto moço: Paixão por esportes e pelo tênis; família e experiência italiana e como ele consegue comer muito e continuar magrinho.

Henrique é cuidadoso e dedicado em tudo que faz. Para responder a entrevista do blog Jornalistas de Talento, ele usou três e-mails. Deve ser, por isso, que ele sempre defendeu as entrevistas pessoalmente. É com muita alegria que Henrique Moretti é hoje nosso talento super especial.
No final da entrevista uma excelente surpresa. Não perca! Vale a pena percorrer os muitos caracteres!


Porque você escolheu ser jornalista?
Quando eu era criança queria ser jogador de futebol – oh, que original! Nunca fui habilidoso, mas treinava bastante, jogava campeonatos e eu tinha boa técnica, chutava com os dois pés, tinha boa visão de jogo. Cheguei a disputar campeonatos, mas uma hora cansei do futebol e aos 12 anos me encantei pelo tênis. Rapidamente quis ser tenista. Treinava todo dia, fazia preparação física, viajava de Itanhaém, no litoral, a São Paulo (111 km) todos os fins de semana para jogar torneios da Federação Paulista. Mas vi que precisava treinar demais e ter um esforço sobre-humano para ir adiante. Lembro que aos 14 anos, então, já pensava em ser jornalista. Sempre gostei de escrever e de ler e vi na profissão uma maneira de continuar ligado ao esporte. Então enquanto eu via muita gente entrar até no 3º ano em dúvida quanto a qual vestibular prestaria, eu já estava decidido havia muito tempo.

Conte sobre uma história da sua infância.
Aos 14 anos, vale? Eu morava em Itanhaém e meus pais queriam que eu fizesse todo o terceiro ano em uma cidade maior: Santos. Naquela hora, provavelmente com medo de ficar longe da família e dos amigos, recusei. Mais para frente viria a me arrepender. Talvez seja por isso que hoje procuro não titubear diante de oportunidades parecidas. Enfim fui para Santos para fazer o terceiro ano, depois morei sozinho em São Paulo, antes da mudança de todo a minha família, e agora cá estou em Curitiba. Esse é um jeito Magnoliano de explicar as coisas e por sinal muito interessante – após as aulas do Magnoli o considero o psicólogo da geopolítica, pois busca explicar o presente a partir de pequenos fatos ocorridos no passado. É interessante como a nossa história dá voltas e você tem a chance de aprender com os erros.
Família (com a irmã)

Qual característica da sua personalidade você mais gosta?
Gosto do fato de eu não me deixar influenciar pelos outros. Essa característica eu sempre tive, até mesmo no período turbulento que é a adolescência. É claro que naquele momento eu às vezes ficava em dúvida, queria fazer as mesmas coisas que alguns amigos, mas ao final prevalecia a minha posição. Eu procurava fazer o que achava certo de acordo com a minha cabeça e confiava no futuro para mostrar que eu estava correto. Claro que hoje corro o risco de ser intransigente, mas procuro me controlar.

Quais são seus principais gostos?
Além de esportes? Filmes, e nesse quesito prefiro os alternativos. Às vezes passo mais tempo do que eu gostaria na internet – isso é viciante, melhor seria nem ligar o computador – para me dedicar mais à leitura, e até que estou melhorando nisso. Gosto de viajar, de conhecer novas culturas e novas pessoas – e isso o jornalismo me permite fazer. No ano passado comecei a ler livros de economia e fiquei fascinado com o mercado financeiro, vejo isso como uma grande oportunidade que ao mesmo tempo é empolgante, igual a um jogo de pôquer.

Uma habilidade. Como descobriu ela?
Eu acredito mais em trabalho que em habilidades. Tudo bem que existem dons, mas mesmo a pessoa mais talentosa do mundo pode ficar para trás, sendo superada por alguém bem menos talentoso que se dedicou muito. O meu pai me dizia isso quando eu era criança e eu duvidava – não tem jeito, eles sempre estão certos. Enfim, mas eu diria minha memória. Não sei dizer como a descobri, mas no ensino fundamental eu estudava muito pouco e sempre tirava boas notas. Meus amigos ficavam irritados com isso. Claro que essa tática não deu certo para sempre, já que as coisas vão ficando mais difíceis na escola e no terceiro ano do ensino médio fiquei pela primeira vez na minha vida de recuperação.

Uma paixão
O jornalismo. Meu pai é engenheiro e minha mãe, assistente social. Ninguém na minha família tem alguma coisa ligada ao jornalismo, e mesmo assim bati o pé e insisti nessa profissão – aliás, agradeço a meus pais pela liberdade que me deram, acho um absurdo os pais que impedem seus filhos de escolher seus cursos. Mal entrei na faculdade e já me disseram: “jornalista ganha mal, jornalismo é uma desilusão”. Continuo ouvindo essas coisas até hoje, mas continuo insistindo.
Gosto de fazer isso e ponto. E olha que na verdade já pensei o jornalismo de várias formas. Aos 14 anos queria ser comentarista de televisão, achava que o jornalista tinha de saber as escalações de vários times de cabeça – eu sabia. Hoje acho isso uma besteira sem tamanho. Se você precisar da informação, você pesquisa e pronto. Não é vergonha dizer “não sei”. E eu achava fantástica a oportunidade de conversar com pessoas famosas.
Hoje acho que é muito mais importante para o jornalista ter sensibilidade e capacidade de interpretação. E por isso admito os jornalistas mais velhos, porque a experiência só melhora o jornalista. E acredito que as melhores histórias estejam nas pessoas comuns, como mostram Gay Talese e Joseph Mitchell. Cada indivíduo tem uma grande história para contar – pena que muitos veículos não dão espaço para isso e seguem pensando apenas nas tais pessoas “importantes”.

Um segredo
Sou chorão. Sempre fui, e quando criança tinha vergonha disso. É bem aquilo que o professor Rafael Ruiz nos falava nas aulas – no modernismo temos que ser fortes, não podemos mostrar nossos sentimentos. Domingo passado fiquei chorando em casa porque recebi a péssima notícia de que a mãe de um de meus melhores amigos morreu. Mas chorei até quando Rubinho cedeu a vitória a Schumacher na Áustria, fiquei com muita raiva da Ferrari.
Esportivo

Conte um pouco sobre sua história com o Tênis.
O tênis é uma das coisas mais importantes na minha vida, mas é preciso jogá-lo com um mínimo de competitividade para entendê-lo. Se eu tiver um filho, gostaria que ele jogasse desde os três anos de idade. O esporte é saúde por si só, mas o tênis é mais: traz valores, exige uma grande disciplina, capacidade de concentração, controle das emoções. Além do desenvolvimento físico, trabalha principalmente com o desenvolvimento mental. Quando dois adversários estão em quadra, travam uma luta tão ferrenha quanto à do boxe – porém sem violência. É o esporte branco. É o esporte no qual os atletas se cumprimentam ao fim da partida e admitem que seu golpe foi para fora antes que o juiz intervenha – aliás, apenas no tênis profissional há juízes, e a ética sempre prevalece, com os jogadores confiando em uns aos outros na hora de cantar a bola fora ou dentro. Claro que já errei e me envolvi em confusão, mas é um esporte que privilegia a justiça. E dentro da quadra você passa por um turbilhão de coisas. Às vezes sua cabeça simplesmente voa e você perde o jogo por causa de uma desconcentração que durou um minuto. Aí você liga a TV e vê o Federer, talvez o jogador mais talentoso de todos os tempos, fazer a mesma coisa. É um esporte muito humano, em que você sente todas as aflições e luta contra os mesmos demônios do jogador profissional. Sigo gostando de futebol, mas o culto à malandragem nessa modalidade me incomoda. Para mim a cabeçada do Zidane no Materazzi foi um gesto muito verdadeiro, espontâneo. O francês não aguentou ao ouvir ofensas a sua irmã. Aí vi muita gente dizendo que isso é normal no campo de jogo. É mesmo normal? Precisa xingar o adversário e provocá-lo para vencer?
E se há uma coisa que me deixa irritado é chamar o tênis de esporte de elite ou de burguês. É claro que é um esporte em geral mais caro que outros, mas uma raquete de ponta custa 600 reais e dura a vida inteira. Isso é caro? É tudo uma questão de prioridades. A Gazeta do Povo publicou outro dia uma matéria mostrando que um carro popular (contando financiamento, estacionamento, seguro etc.) custa em média 900 reais por mês em Curitiba. Isso sim é caro – não sou contrário a ter carros, mas muitas pessoas não pensam direito nisso e poderiam investir o dinheiro de uma forma muito melhor. E há quadras públicas – em São Paulo são 42, em Curitiba já joguei em duas. No Parque Villa Lobos, em São Paulo, há um projeto social que já colocou 500 crianças de escolas públicas em contato com o tênis. A ideia principal ali não é ter um jogador profissional, mas mostrar belas alternativas – dão treinamento para ser professor, para ser juiz de linha, juiz de cadeira, para ser pegador de bola em torneios oficiais, incentivam que os garotos façam educação física. Acredito no esporte como instrumento de transformação social não porque alguém pode subir na vida e virar milionário, mas pelas coisas boas que ele ensina. No Brasil deveríamos levar as pessoas ao esporte não simplesmente para ganhar e se tornar profissional – isso seria um investimento artificial igual ao da China, feito em determinados esportes que distribuem muitas medalhas só para ganhar as Olimpíadas. Deveríamos seguir o exemplo dos EUA, com esporte e universidade andando lado a lado, com o esporte sendo tratado como uma disciplina necessária assim como as demais.

E a experiência italiana?
Passei exatos 30 dias lá. Fui com meu pai e tínhamos dois objetivos: providenciar nossa cidadania italiana e conhecer nossos parentes. O que mais gostei? Vale sorvete? Não sou o maior fã de sorvete, mas lá tomava no mínimo dois por dia – como era bom. Falando sério, das pessoas que conheci. Aproveitei parte do tempo para fazer um curso de italiano e fiquei maravilhado com a diversidade de pessoas – havia até três japoneses fazendo intercâmbio. O italiano é uma língua maravilhosa, mas até japoneses se interessavam por ela? Como isso me surpreendeu. Até hoje mantenho uma amizade muito forte com uma amiga croata (planejo ir para lá, já que a nova Ibiza fica em uma ilha croata) e com um francês e um espanhol. E gostei muito de meus parentes distantes. Conheci duas irmãs de meu bisavô, que era na prática o italiano da minha família e morreu em 1995. O modo como todos lá me trataram foi impressionante – levavam-me para todos os lugares, tinham uma paciência enorme.
Voltei de lá sendo mais conivente com os inúmeros problemas do Brasil. Sempre fui muito crítico com tudo aqui, odiava o tal jeitinho brasileiro eternizado em Raízes do Brasil. Na Itália vi sorveteiro tentando ganhar dinheiro a mais em cima de turista que não falava italiano, presenciei uma greve nos trens que me deixou preso em Gênova... Hoje procuro mais buscar soluções em vez de ficar criticando.
Turístico

Uma pergunta que todos os talentos querem saber: como você explica o fato de comer muito e pouco engordar? Sempre foi guloso?
Não diria guloso, porque se formos analisar metade do meu prato é de salada. Tenho esse negócio de “geração saúde” muito forte em mim – como muitas frutas também e não bebo refrigerante há 12 anos. Quando estou com vontade de comer um doce, substituo por uma laranja, uma mexerica, um mamão... Funciona! E essas coisas nunca ninguém me disse para fazer, é algo da minha cabeça, minha família nunca teve muitas preocupações nesse sentido. Eu sempre comi de tudo, não tenho frescura com comida.
Tenho uma história engraçada, porque na primeira vez em que fui a uma churrascaria – foi com o pessoal do tênis, eu tinha uns 13 anos – veio uma banana assada e eu comi até a casca. Ficaram tirando sarro de mim por meses. Gosto de comer bastante, porém faço muita atividade física também. Em Curitiba por exemplo ando todos os dias 7 km do Juvevê até a Gazeta do Povo(contando ida e volta). E gosto muito de andar. Em casa não como tanto assim, às vezes tenho preguiça, vontade de gastar o tempo em outra coisa. Só quando vou a restaurante que como muito. Ali é um momento em que estou concentrado!

Como você espera o futuro?
Quero continuar conhecendo as histórias fascinantes das pessoas. Quero conhecer vários lugares do mundo, culturas diferentes. E não quero ficar parado jamais. Tenho necessidade de fazer sempre alguma coisa. E quero me atualizar, fazer uma outra faculdade. Em 2007 fiz o primeiro ano de letras na USP, mas parei para começar a estagiar como jornalista. Não era maduro o suficiente para enxergar a importância de me aprofundar em outros temas e penso em fazer história, letras ou ciências sociais, porque a faculdade de jornalismo trata vários assuntos superficialmente.

Uma mensagem para deixar para a posteridade e a prosperidade
Corra atrás dos seus objetivos.
Gosto da história de quando a Alice encontra o gato e pergunta:
"O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar?" 
"Isso depende muito de para onde você quer ir", respondeu o Gato. 
"Não sei para onde quero ir", retrucou Alice. 
"Então não importa o caminho que você escolher", disse o Gato.
Aquela história de “deixe a vida me levar” é a pior coisa que existe. Precisamos viver os momentos intensamente e trabalhar para alcançar nossos sonhos. Quando miro uma coisa, penso logo no que terei de fazer para chegar lá. Se você se encontrar fazendo uma coisa no piloto automático, pare na hora e reflita.

Outras considerações que você desejar
O que vou dizer ainda tem a ver com o outro tópico. Fiquei com fama de indeciso na segunda parte do trainee e tive milhões de dúvidas, pensando se eu deveria dizer que havia chegado à conclusão de que eu deveria ir para a Gazeta do Povo – eu tinha concluído que não precisava de uma experiência nova em TV e que só não estive satisfeito com os lugares nos quais trabalhei antes devido a uma situação ou outra que na Gazeta não existiria. Fui atrás do meu objetivo – meio tardiamente, é verdade –, resolvi falar e deu certo. Admiro também a atitude do Evandro que preferiu fazer o trainee da TV – obviamente ele estava mais decidido que eu, mas eu tive uma experiência incrível de reflexão até entender o que eu realmente queria – olha a história Magnoliana aí de novo. Enfim, passadas três semanas, eu já tinha a absoluta certeza de que eu havia tomado o caminho certo e nesta sexta tive mais um motivo para comemorar: ficarei os próximos 30 dias como freela de esportes na Gazeta. Agora é aproveitar a oportunidade! 

Parabéns! O blog Jornalistas de Talento orgulha de você e deseja muita força e felicidade na nova tarefa!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Post dos professores - Luís Celso Jr.

Luís Celso Jr.: foi na aula dele que o blog Jornalistas de Talento virou uma realidade.

Hoje – um pouco mais de um mês após o fim do curso teórico do trainee GRPCOM –, ele manda um presente para os talentosos:


Um professor calouro e uma turma de mestres

Existe uma máxima (que na verdade está mais para clichê) na qual todo o professor cai um dia: dizer que em sala de aula ele aprende na mesma medida, ou até mais, do que ensina. Eis que me peguei repetindo a mesma coisa quando pensava no que escrever para vocês, queridos ex-alunos. Após a breve vivência que tivemos, posso dizer com conhecimento de causa que essa frase não é só discurso, mesmo que repetido até a exaustão.

Fiz algumas palestras sobre mídias sociais e até dei entrevistas sobre o assunto. Fora as tantas vezes que já falei em público sobre cervejas, claro. Mas a coisa mudou de figura quando tive que montar um curso completo, com começo, meio e fim. Foi minha primeira experiência. Fui calouro, e vocês meus mestres.  
Aprendi durante nossa convivência que a diversidade ainda é nossa marca mais forte. Jornalistas com diferentes formações, de vários locais e ideias diversas continuam a pipocar dos cursos para a carreira. E isso é ótimo. De onde mais sairia nossa criatividade? Projetos muito ricos apareceram, baseando-se principalmente em boas ideias. 
Saí sabendo que há bons jornalistas cantores, há trainees dedicados, ainda há roqueiros e literatos. Também aprendi que há muito mais Luiz(s) nessa profissão do que eu imaginava... 
Aprendi a não cobrar que todos sejam espelhos do professor (apesar de eu ser lindo “prá lascar”). Ninguém tem obrigação a ser meio “nerd” como eu. E é possível, sim, obter resultados mesmo com essa heterogeneidade. Desde que com respeito, dedicação e principalmente confiança. Por isso, agradeço que tenham confiado em mim. 
Agora sei que só o “Ctrl-S” salva! Nunca mais perco uma apresentação. 
Aprendi que o café de graça não existe. Aquilo que eles serviam no MacDonald’s era outra coisa. 
Descobri que a Boca Maldita pode acabar com a bendita garganta do professor e paciência dos alunos. E que os músicos peruanos não tocam só música típica. 
Aprendi que é importante saber improvisar. Mudar um curso que já está começado é difícil, mas importante. 
Agora sei que balas em sala de aula fazem sucesso! 
E que não levo muito jeito para Capitão Nascimento. 
Vendo o gosto que vocês tem pelo jornalismo, aprendi a não deixar velhos ideias de lado. E aqui vai mais um clichê: nunca desistam dos seus sonhos (eita, tô inspirado hoje!)

 
Também aprendi que o curso tem que ter aulas mais espaçadas para dar tempo de fazer o projeto (tá vendo, li a avaliação que vocês fizeram). 
Saí renovado. E vocês, o que aprenderam?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Perfil de Talento - Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati é uma coletânea de talentos: desenha, escreve e muito expressa. Foi um dos primeiros trainees a ser contratado e já está trabalhando super na Gazeta.
É uma pessoa difícil de editar e descrever. Por isso mesmo, damos todas as palavras, os espaços e o palco para o artista-comunicador.
                                                      
Porque você escolheu ser jornalista?
Não sei mesmo. Eu era muito imaturo e indisciplinado na adolescência, provavelmente devo ter visto o leque de cursos disponíveis nas instituições universitárias do Brasil e escolhido um em que eu não tivesse que mexer com física. Não me orgulho de ter sido um adolescente relapso, mas pelo menos minha história não é tão vergonhosa quanto àquela da Daniela Albuquerque e seu Toddynho.
Mas hoje posso dizer o que gosto no jornalismo. Gosto principalmente da ideia de informar e levar conhecimento até o leitor, principalmente se for mesmo algo sobre o que ele queira e precise se informar. No caso do jornalismo cultural, gosto do fato de ser uma atividade intelectual exercida diariamente e ser ao mesmo tempo formadora e não-sisuda. Enfim, gosto que o jornalismo faça parte da vida das pessoas no campo intelectual. Contribuir para tentar tornar o mundo um lugar mais inteligente é uma ideia bacana. Fico feliz de ter feito essa escolha, não me imagino exercendo outra profissão.
Surf 80's
E sua história com os desenhos, literatura e charges? Conte um pouquinho para nós. 
Os desenhos vieram primeiro. Acho que toda criança desenha, né? Eu aprendi a desenhar com o meu tio: aquele tio legal que te ensina a surfar, a ouvir boa música e a ser mais esperto nessa vida. Meu avô também desenha e meu bisavô era um virtuose no desenho, só lamento que essas coisas tenham muito mais a ver com disposição do que genética. O ponto alto da minha pífia carreira como artista do underground foi essa exposição no Bar James que teve esse ano. Ver as pessoas suspirando de alívio por eu não ser mais um artista do computador foi gratificante, achei que esses desenhos toscos não tinham mais vez.
Quanto à literatura. Bom, até os dezessete anos eu não tinha absolutamente nada na cabeça. Foi quando meu pai me largou sozinho aqui na cidade grande pra eu aprender a ser gente. Além de estudar e bancar o flâneur por aí, não tinha nada para fazer numa casa sem televisão, sem internet e sem amigos. Então um dia quis comprar um livro pra matar o tempo e meu pai disse que bancaria todas as minhas leituras. Minha mãe mandava livros pelo correio e logo comecei a tomar gosto pela coisa. Hoje sou um leitor costumaz e muito organizado com as minhas leituras. Ficho, anoto, catalogo, etc. Gosto principalmente de literatura contemporânea, e tenho muitos escritores favoritos, mas posso citar o sul africano John Maxwell Coetzee, o peruano Mario Vargas Llosa e o italiano Italo Calvino. Minha maior conquista nesse sentido foi ter entrevistado o Mia Couto, um grande escritor moçambicano que é um dos meus favoritos também, já li todos os livros dele publicados no Brasil. A entrevista saiu na Gazeta em 2009 e está neste link:
http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?id=911382
O pai é eterno, a mãe é imortal
A contratação pela Gazeta te pegou de surpresa?
Pô, claro.
Quando recebeu a notícia? Quando vai começar o novo trabalho?
Dia 5 de abril. Estava fazendo a cobertura do Festival de Curitiba e o Paulo e a Marleth me chamaram para conversar. Disseram que havia aberto uma vaga no Caderno G e perguntaram se eu estava interessado. É igual perguntar pro Capitão Ahab se ele está interessado em pegar aquela baleia safada. Já estou trabalhando lá, mas como contratado, comecei dia 25 de abril.
E sobre o Caderno G: está feliz? O que espera? 
Desde que entrei na faculdade, quis escrever sobre cultura. Então é claro que eu tô mais feliz do que sapo na chuva. O Caderno G é um dos últimos lugares do Brasil para se fazer jornalismo cultural de gente grande. Por isso mesmo estou também pisando com cuidado. Tenho muito o que aprender com aqueles caras. E espero aprender.
Conte sobre uma história da sua infância. 
Meu pai é biólogo, e na pequena vila em que eu morava não havia viveiro para animais silvestres, de maneira que meu pai cuidava de todo bicho adoentado lá em casa (tudo autorizado pelo Ibama). Convivi com araras, tamanduás, pingüins e falcões. Mas eu lembro que eu gostava mesmo era de uma preguiça que morou com a gente por umas semanas. Eu chegava do colégio e ela tava lá penduradona no varal, tomando sol. Tirando as unhas mortais, ela era bem dócil e quero crer que gostava de mim tanto quando eu gostava dela.
Pinguim

E qual a história do seu nome? Qual a origem da sua família?
Minha família é de origem grega, embora o nome seja árabe. Coisas de lugar cosmopolita, eu acho. Meu bisavô é grego, mas sabemos muito pouco sobre a origem. Já escrevemos para a embaixada mas não obtivemos resposta. O meu nome é fácil. Qualquer pessoa com menos de 50 anos que se chame Yuri provavelmente tem esse nome por causa do Yuri Gagarin. A menos que seja o pai seja fã da era Brejnev e do Yuri Andropov, o que eu não acredito que alguém seja.
Como você espera o futuro?
Com calma, não tenho pressa.
Amadeus
Uma mensagem para deixar para a posteridade e a prosperidade.
Acho que viver a vida com leveza é importante. Gosto de uma frase apócrifa do Tristram Shandy, personagem do Laurence Sterne que diz: “A seriedade é uma misteriosa atitude do corpo para ocultar os defeitos da mente”. Independente de quanta responsabilidade ou conhecimento você carregue nas costas, leveza e bom humor nunca devem ser perdidos. Humildade também é legal.
Outras considerações que você desejar:
Já repararam que toda vez que um piso fica molhado é muito mais fácil aparecer uma placa de “Cuidado! Piso Molhado” do que um pano de chão? Tenho uma ‘tioria’ de fundo filosófico sobre isso, me procurem que eu explico.

sábado, 16 de abril de 2011

Perfil de Talento - Gabriel Bozza

O talentoso Gabriel Bozza já tinha a Gazeta do Povo em seu caminho bem antes de começar o programa trainee - Talento Jornalismo 2011.

O Jornalismo também esteve sempre presente na história de vida de Gabriel, mesmo quando ele – com as dúvidas humanas que todos nós temos – chegou a especular sobre outras profissões.

Numa detalhada entrevista por e-mail, Gabriel conta com capricho sua estrada de dedicação. É com muita alegria que o blog Jornalistas de Talento apresenta a entrevista deste paranaense sensível:


Uma história da sua infância
Na infância eu era muito arteiro. Um paradoxo da atualidade. Minha mãe conta que uma vez balancei uma prateleira de um supermercado quando eu quis uma coisa e ela não iria comprar. Foi o maior sufoco que fiz ela passar. Os atendentes do supermercado a ajudaram a segurar uma gôndola repleta de objetos de vidro e caixas.
Menino Sapeca

E uma segunda história de aperitivo. Minha mãe disse que eu na infância gostava de assistir casamentos, que coisa maluca de eu imaginar isso hoje. E num sábado passávamos em frente a uma igreja no Rebouças e convenci que nós deveríamos entrar e ela falou: “Gabriel, fique quieto, vamos entrar, e não faça barulho.” E num momento quase no fim da cerimônia, e no momento em que o padre se preparava para a fala final, eu bati palmas e dei uma gargalhada gostosa, típica de criança. Imaginem o eco na igreja. A mãe conta que o padre parou. Os noivos e os convidados olharam para trás.


Uma paixão
Minha mãe. Sou filho único de mãe solteira. Como diria Chico César: “Mama África, a minha mãe é mãe solteira”. Como não conheci o meu pai, quem me educou e trabalhou para dar um futuro melhor para esse aqui foi ela. Agora chegou meu momento de retribuir esse esforço todo, ou melhor, essa paixão.
Batizado

Quais são seus principais gostos?
Meu gosto principal é sem dúvida esportes, principalmente futebol. Ele está enraizado na cultura brasileira e na minha. Sempre me pego assistindo jogos, gosto de fazer estatísticas e conhecer sempre mais sobre clubes e jogadores. Sempre estou assistindo e procurando entender novos esportes. Desde as últimas Olimpíadas de Inverno aprendi muito sobre o curling. Diria que é praticamente um tabuleiro de xadrez.
Não dispenso um bom livro. Agora estou lendo “Honra Teu Pai” de Gay Talese. Uma não ficção da máfia. Gosto de ouvir meus DVDs em casa. Sou bastante eclético, mas confesso não ser fã de sertanejo e pagode.
Eu gosto também de brincar com meus dois cachorros no jardim de casa. Animo os dois “monstros” e ainda faço um pouco de exercício físico quando corremos juntos. Tá certo que sempre ganho uns arranhões e dentadas.
Jogo de Paintball com o pessoal da faculdade

Um segredo
Quase que a arbitragem profissional me roubou do jornalismo diário. No segundo semestre de 2006 surgiu à oportunidade de fazer um curso de arbitragem na Federação Paranaense de Futebol (FPF). Fiz a inscrição e estava apto para dar o pontapé de partida. Porém, em virtude de problemas administrativos, não foi possível o investimento da entidade no curso. Cancelaram. Perdi a oportunidade de que os policiais fossem meus melhores amigos, mas evitei que minha mãe fosse xingada nos estádios. Ufa! Hoje analiso no campo e na telinha a atuação dos árbitros. Um gosto estranho.

Qual característica da sua personalidade você mais gosta?
Eu valorizo os meus princípios, e sempre sou muito sincero com relação a tudo. Acho que é uma das principais qualidades adquiridas. Não admito falsidade. Sou o mais espontâneo possível. E sinto a retribuição e alguns buscam saber minha opinião sobre diferentes coisas, e se abrem pra falar sobre seus problemas. Isso é gratificante. Tenho bons amigos por isso.
Com amigos no convite de formatura

Uma habilidade. Como descobriu ela?
Elogiar. Acredito que muitas pessoas encontram essa dificuldade. Essa foi uma habilidade aprendida. É preciso valorizar as pessoas, compreender os erros, tentar ajudar quando possível, e elogiar quando for adequado. E isso se traduz em apreço da pessoa por você. Consegui estreitar muitas amizades ao observar o que o outro faz. A pessoa saber que alguém está olhando o trabalho e reconhecendo o esforço realizado para atingir um objetivo final.

Porque você escolheu ser jornalista?
A vontade de ser jornalista surgiu com as aventuras de Tintin, aquele jovem repórter belga. Acredito que o desenho era um prato cheio para a profissão e para quem nem ao menos sabia o que era jornalismo investigativo, mas tinha vontade de fazer.
Minha primeira escolha para ingressar no ensino universitário foi Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia e não Jornalismo. Estranho, mas explico. O interesse surgiu porque a genética era um tema bastante discutido e parecia a profissão do futuro. Enfim, não passei por pouco e não era o que queria. Pior mesmo era só o teste vocacional que me sugeriu ser piloto de avião ou helicóptero. Ou seja, deveria fazer ITA. Nada a ver comigo.
Assim fiz um curso técnico no Senai, e fui trabalhar com gestão de qualidade. Aprendi muito por trabalhar em contato direto com o Denatran, Detran e Inmetro. E entre uma tentativa e outra de ingressar numa universidade, surge a oportunidade de usufruir de uma bolsa do ProUni, em razão de ter obtido uma boa nota no Enem. Assim não pensei duas vezes e escolhi como primeira opção Jornalismo na PUCPR e dei início ao meu sonho.
No estúdio de rádio - PUC/PR

Em resumo, escolhi Jornalismo pela capacidade que ele tem de ser um elo entre a comunicação e a sociedade. Acredito que tenho a contribuir e principalmente ajudar a unir diferentes camadas sociais e promover o desenvolvimento e bem-estar social. Para isso é preciso que ajudemos a romper esse isolamento dos indivíduos na atualidade, resgatando os valores éticos, sociais e morais perdidos.

Você já convive com o ambiente da Gazeta faz um bom tempinho. Como são seus sentimentos em relação a esse jornal?
Ingressei no fim de maio de 2008 no jornal. Uma empresa de gestão de pessoas recrutava para uma vaga que foi aberta a noite na internet, para trabalhar com jornalismo online. Um professor da faculdade, o José Carlos Fernandes, que todos conhecem, me avisou da vaga. Sem dúvida foi quem acreditou e impulsionou esse jovem. Reconhecimento vindo do melhor jornalista do estado e um dos melhores do Brasil, sem exagero algum. Algo melhor que isso era impossível para um acadêmico.
A jornalista Silvia Zanella, editora-executiva do portal, me abraçou como um filho e deu essa chance quando ainda estava no segundo ano da faculdade. E como sempre me dediquei na vida, não o fiz diferente no jornal.
Hoje a Gazeta do Povo faz parte do meu dia a dia. Não consigo desligar do jornalismo. Mesmo em momentos fora do veículo, me pego observando o site, lendo, anotando novas fontes e dados de matérias do impresso e twittando notícias e outros fatos curiosos. A Gazeta é muitas vezes a minha primeira casa.
No dia 25 de abril, após exatos 2 anos, 10 meses e 19 dias de trabalhos noturnos que começavam à 18h e adentravam a madrugada do dia seguinte, assumo novos desafios profissionais na Gazeta do Povo. O jornalismo cultural para mim será uma aventura a ser descoberta, confesso que serei praticamente um interiorano vindo pra cidade grande. Tenho apoio de muita gente, que confia no meu trabalho, e isso me gratifica. O lema é ousar e meter a cara e, assim, se Deus quiser, alcançar novos desafios.

Você tem uma história curiosa para contar sobre a vida na redação?
Todos os dias na redação acontecem fatos curiosos, às vezes percebemos e rimos junto ou nem ao menos nos damos conta. Lembro de um fato marcante:
Dias após ingressar na redação tive a proeza de derrubar um extintor de incêndio no piso. Mas ele não estava fixo na parede, e sim posicionado no chão. Quando bati com a cadeira nele, só escutei um barulho forte, praticamente um estrondo. Toda redação olhou em minha direção. O barulho ecoou até o fundo, onde sentam os editores e o chefe de redação. Todos repórteres me observavam e obviamente esperavam uma reação. Só lembro de ter perdido desculpa pelo barulho.

Como você espera o futuro?
Durante esses quatro anos de faculdade, contei com a colaboração de alguns profissionais e corri atrás para adquirir uma fonte de contatos. Fiz recortes de jornais, e montei um banco de dados sobre diferentes assuntos. Sempre me vi trabalhando com a sociedade e trazendo problemas vividos por eles de perto, algo mais próximo do jornalismo cidadão. Outra coisa que me interessa é poder escrever sobre esportes, trazer histórias de vida que interessem e que sirvam de espelho para o mais variado tipo de pessoas, criando identificação e/ou reflexão. Assim confesso que meus gostos pessoais são esportes e sociedade.
Eu estou sempre atento ao campo da política, economia e comunicação também. Sou um eterno estudioso. Com isso no futuro pretendo novamente tentar mestrado em Comunicação. Nesse ano tive um insucesso. Cheguei à final, mas não deu na hora de defesa do projeto. Espero lecionar e contribuir com o meu conhecimento para o enriquecimento da área.
Foto do convite de formatura

Uma mensagem para deixar para a posteridade e a prosperidade: “Não tenha medo de arriscar. É necessário ousar e errar para alcançar objetivos na vida. Estabeleça metas e cumpra elas a risca. Invista seu tempo mesmo naquilo que parece loucura para alguns. Informe-se, aprenda e compreenda o que o cerca. Abdicar de algumas coisas durante seu desenvolvimento pessoal e profissional, mesmo que no início pareça doloroso, traz resultados a médio e longo prazo”.

Outras considerações que você desejar
Queria apenas deixar um poema que gosto muito. “Loucos e Santos” de Oscar Wilde. Estava no nosso convite de formatura de jornalismo, inclusive. É assim que faço amigos:
“Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila./Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante./A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos./Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo./Deles não quero resposta, quero meu avesso./Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim./Para isso, só sendo louco./Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças./Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta./Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria./Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto./Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. /Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos./Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça./Não quero amigos adultos nem chatos./Quero-os metade infância e outra metade velhice!/Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa./Tenho amigos para saber quem eu sou./Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que ‘normalidade’ é uma ilusão imbecil e estéril.”

terça-feira, 12 de abril de 2011

Perfil de Talento – Rafael Waltrick

O talento Rafael Waltrick tem agora um novo desafio: a Economia. Esse catarinense já tem uma bela história no jornalismo (como é possível perceber nas encantadoras respostas deste perfil) e está começando, nesta semana, a escrever notícias na Gazeta do Povo sobre o mundo dos negócios e do dinheiro.
Outro destaque do Rafael, que vamos conhecer nas linhas abaixo, é um moço bem romântico que demonstra nuances do vermelho do seu coração.
Waltrick é com muito prazer e orgulho que te damos a palavra no blog Jornalistas de Talento (já que você sempre adorou as letras).
Porque você escolheu ser jornalista?

Desde criança, sempre fui muito incentivado pela minha mãe a ler. De tudo: livros, revistas, histórias em quadrinhos. E, com isso, acabei pegando gosto também por escrever. Quando tinha 12 anos, comecei inclusive a escrever um romance, que nunca terminei, mas tenho guardado até hoje. Assim, sendo bem prático, como tinha facilidade para escrever e gostava muito de ler, achei que o jornalismo seria a opção mais plausível. Só depois, quando já estava na faculdade e trabalhando na área, acabei assumindo o jornalismo como uma paixão mesmo, adotando a profissão por motivos mais nobres, por assim dizer.
Conte sobre sua experiência no Santa, jornal do Grupo RBS.
O Santa foi uma grande escola pra mim. Uma segunda faculdade, por assim dizer. Na verdade, em jornalismo, acredito que muito se aprende mesmo na prática, dentro da redação. Logo que me formei, tive a sorte de conseguir um emprego no Santa, na editoria de Geral e Segurança. Já tinha trabalhado em outros jornais, mas nenhum do porte e estrutura do Santa.
A primeira grande experiência surgiu uns quatro meses após ser contratado. Como era pouco conhecido na cidade, fui escolhido para fazer uma série especial, onde eu teria que “encarnar” um migrante, vindo do “interior” em busca de emprego e moradia. Assim, com a barba grande, só de bermuda e uma camisa velha, fui largado na rodoviária de Blumenau com R$ 30 no bolso. Se não arranjasse emprego ou lugar pra ficar, ia ter que dormir na rua. Claro que não queriam que eu corresse risco ou levasse tudo ao extremo, mas botei na cabeça que só funcionaria se eu “interpretasse” mesmo tudo ao pé da letra. No fim das contas, fui parar em um abrigo para moradores de rua, onde fiquei dois dias, dormindo e comendo lá. Fui entrevistado por assistentes sociais, psicóloga, fiquei próximo dessas pessoas que moravam na rua e não tinham parentes, amigos ou qualquer expectativa em relação a nada. Ninguém descobriu meu “disfarce” e, no final, pagaram minha passagem de volta pro município de Lages, de onde eu dizia que tinha vindo. Esse foi o ponto de partida da série de reportagens.
Em outro momento, eu e um repórter fotográfico nos “infiltramos” no interior do Litoral catarinense para desvendar a logística e preparação da farra do boi, uma prática comum na época da Páscoa, proibida por lei. Acabamos ficando próximos do maior fornecedor de bois para a farra do Estado e conseguimos detalhes de como todo o esquema funcionava. A intimidade com o cidadão era tanta que ele, que tinha uma mercearia no interior de Tijucas, chegou a fazer churrasco pra gente. Foi complicado depois anunciarmos pro cara que éramos jornalistas, mas essa proximidade fez parte da estratégia da matéria. Também virou uma série de reportagens especiais.
Também pelo Santa, viajei até Israel, onde passei uma semana preparando reportagens para os cadernos de Turismo e Viagem do Grupo RBS, a convite do Ministério do Turismo do país. Foi uma grande experiência profissional e pessoal. É um país maravilhoso, muito peculiar, que acabou sendo refém de uma imagem equivocada transmitida por parte da mídia.
Com o tempo, acabei virando editor assistente de Geral e Segurança, onde passei a fazer parte do “outro lado”, onde também aprendi muito. Para não me estender mais, posso dizer que fazer um jornal diário é, sim, cansativo e estressante, mas, também, um grande barato para quem gosta mesmo da coisa. Em toda profissão é assim: você só é feliz se está fazendo aquilo que gosta. Mas vejo que no jornalismo isso é muito mais forte, é preciso sentir tesão, paixão pelo que você está fazendo.
Comente um pouquinho também sobre sua relação com a Economia e a empolgação para o novo trabalho na Gazeta.
Tenho muito a agradecer à Marisa e ao pessoal da Gazeta pela chance. Esse trabalho temporário será mesmo uma grande experiência e desafio, até porque nunca trabalhei efetivamente em uma editoria de Economia. Já fiz algumas matérias, mas nunca adotei a rotina desse tema no dia-a-dia. Sinto que vou aprender muito, pedalar um tanto e achar que estou lendo grego às vezes (risadas). Mas, agora que me deram essa oportunidade, é a minha vez de fazer o máximo e correr atrás. Hoje, inclusive, comprei pela primeira vez na vida a revista Exame.
 Qual característica da sua personalidade você mais gosta?
Eu me acho muito tranqüilo. Aprendi que não vale a pena se estressar e que preocupação é um gasto de energia por antecipação e, portanto, desnecessário. Você precisa estar focado, concentrado, mas não sair por aí arrancando os cabelos. No fim, tudo se ajeita. Se não se ajeitou ainda, é porque não chegou ao fim (típica filosofia de boteco, mas é verdade).
Uma habilidade. Como descobriu ela?
Tocar violão. Não que eu seja um exímio músico, longe disso, mas acabei aprendendo na marra, quando eu tinha lá uns 14 anos, motivado por um primo que também tocava. Nunca fiz aula e, hoje, gosto muito de passar o tempo tocando violão, seja sozinho ou num churrasco, pro pessoal. Tanto que estou com uma saudade tremenda dos meus três violões, que ficaram lá em Itapema.
Quais são seus principais gostos?
Sou meio fanático por cinema e literatura. Coleciono DVDs e livros e sou meio compulsivo com essas coisas. Posso ficar meses sem comprar uma roupa pra mim, mas dificilmente passo duas semanas sem fazer umas comprinhas no sebo ou na Americanas, que tem uns filmes baratinhos.
Um segredo
Quando eu tinha seis anos de idade, perguntei pra minha mãe como se escrevia “apaixonado”. Estava escrevendo uma cartinha pra uma colega da escola. Escrevi, mas nunca entreguei a carta. Talvez por isso eu seja um romântico frustrado até hoje.
Uma paixão
Fora o cinema, literatura e jornalismo? Grace Kelly. É a mulher mais linda que já vi na vida e uma grande atriz. Mandei fazer um tempinho atrás um quadro dela e pendurei na parede do meu apartamento em Blumenau. De vez em quando, olhava e dava uma suspirada.

Conte sobre uma história da sua infância.
Sempre fui um aluno meio CDF. Não era daqueles chatos (assim espero), mas levava os estudos muito a sério. Um dia, na sétima série, pelo que me lembro, recebi uma prova de matemática. Tinha tirado quatro. Chorei que me acabei, ali, no meio da sala, e em casa. Foi, no mínimo, constrangedor. Com o tempo, acabei vendo que tirar uma nota baixa não era o fim do mundo.  
Como você espera o futuro?
Oscar Wilde, um escritor e dramaturgo que gosto muito, diz: “O saber é fatal. Na incerteza é que está o encanto”. Acho que o dia em que eu concluir que o meu futuro está traçado ou que já sei exatamente o que vai acontecer, terei perdido muito da vontade e do tesão de viver. Espero somente que o futuro me surpreenda e que, lá na frente, eu possa olhar pra trás e ver que todas as dificuldades, desafios, incomodações e sacrifícios valeram a pena.
Uma mensagem para deixar para a posteridade e a prosperidade: Não tenha medo de ousar, arriscar, apostar alto, sonhar, amar. É isso que nos mantém vivos. É por isso que vale a pena acordar todos os dias de manhã.

sábado, 9 de abril de 2011

Perfil de Talento – Murilo Ribas

É com prazer que o blog Jornalistas de Talento recebe um amante das imagens. Murilo Ribas é um dos dois participantes de reportagem cinematográfica em 2011.

Dono de uma personalidade forte e única, esse talento acredita ser diferente do mundo social. Mas assim como a maioria das pessoas, ele tem uma forte paixão. No caso dele, a fotografia é essa paixão. As imagens parecem  ser um grande norte na vida deste jornalista.

“Estou tentando ser mais flexível e não tão intolerante. Estou aprendendo que as pessoas fazem o que querem e acham certo. E é assim que é. Não tenho que ficar me incomodando com isso”. Essa é uma das interessantes confissões, que Murilo apresentou na entrevista por e-mail. 

Conheça mais desse talento, que traz um colorido negro para o mosaico dos Jornalistas de Talento


Seja muito bem-vindo, Ribas!

Porque você escolheu ser jornalista?
Foi um pouco por acaso: queria fazer um curso que fosse legal e que não precisasse trabalhar num escritório. Jornalismo parecia ser assim.
Mas a idéia inicial, que perdura até hoje (quase 9 anos depois de começar a faculdade), é a da oportunidade de presenciar fatos e estar em lugares que as pessoas “normais” não vão ter a oportunidade de estar. Alguém tem que mostrar isso, então que seja eu.
Gosto muito da idéia de registrar a história e fazer parte dela de algum modo.

E porque a opção pela cinematografia?
O vídeo veio sempre como um “projeto paralelo” à fotografia. O legal é que hoje tem essa possibilidade de se tornar o projeto principal. Gosto de poder “brincar” com as duas linguagens. Até porque existem cenas que ficam melhores em movimento.

Comente um pouquinho sobre a importância das imagens, fotografias e vídeos na sua vida.
Imagem é a minha vida, brega falar assim, mas é verdade. Fotografia, principalmente, é uma parte muito grande da minha vida. Vivo para fazer isso. E com o maior prazer.
É uma das coisas que mais diverte e dá realização. É a única coisa na vida, que eu posso dizer que sei fazer. É meu trabalho e meu hobby. São alguns bons anos estudando, praticando e investindo uma boa grana em cursos e equipamentos. É em que me dedico. Vai ficar até chato isso aqui: vou falar de imagem em todas as respostas. Vou tentar me controlar. É algo que não tem mais como separar de mim. Na faculdade eu era relacionado à fotografia: “O Murilo é aquele cara da foto”.
E foi fotografando que tive algumas das experiências mais legais e diferentes da minha vida.  Já fotografei gente pendurada por ganchos (e se divertindo), cirurgia cardíaca, final de campeonato de futebol, invasão de favela, shows de rock, desfile de moda e pude viajar pra cidadezinhas do interior do estado, que nunca tinha ouvido falar.
Que venham mais coisas estranhas,ou não, para registrar.
Murilo no Complexo do Alemão
Qual característica da sua personalidade você mais gosta?
Sou muito tranqüilo. Tenho minhas idéias e ideais bem consolidados. Tenho uma visão de mundo e do quero para a minha vida, um tanto diferente da grande maioria das pessoas... Isso me atrapalha “um pouco”, mas no fundo também gosto disso, faz me sentir bem, e honesto comigo e com o resto do mundo.
Gosto de tentar ser uma boa pessoa: gosto de quem eu sou. 

Um segredo:
Acho que não tenho nada que seja tão segredo. Mas já gastei 300 reais em um “boneco de brinquedo” que não serve para nada, mas é muito legal.

Uma paixão:
Uma só? Fotografar.

Sua música predileta e uns versos que te emocionam:
Não sei se tenho uma música predileta, isso vai de época para época.
Desde que começou o trainee tenho escutado uns mantras que o George Harriosn gravou. Ajuda a dar uma acalmada. Essa semana escutei bastante Matisyahu. Mas não fico sem ouvir “porradaria” que sempre gostei, do metal ao punk nacional dos mais toscos.
Um verso, não que emocione, mas diz um pouco sobre o que acredito, é de uma banda Straight Edge de São Paulo chamada Good Intentions.
"Uma parte de minha vida, dedicação
Para tudo que acredito, convicção."
(Good Intentions

Uma habilidade. Como descobriu ela?
Não tenho muitas habilidades. Já tentei tocar guitarra, mas infelizmente ser um Rock Star não era pra mim. Não tenho muita coordenação motora para esportes, nem para trabalhos manuais. Tenho habilidades inúteis do tipo, poder dormir 10, até 12 horas num dia.


Acho que a única coisa útil em que tenho alguma habilidade é com a câmera na mão mesmo. E só fui descobrir isso, na faculdade, na primeira aula de foto. Sou daqueles que deram sorte em descobrir o seu dom.
Show no 92º
Quais são seus principais gostos?
Ficar quieto no meu canto, só “olhando o movimento”.
Ta aí uma coisa que eu gosto muito. Observar as pessoas, os comportamentos, os lugares, os detalhes das coisas.
Fora isso, adoro Discovery Channel, filmes ruins, meu sofá, dormir, vídeo-games, garotas (Embora não me dê muito bem com elas. E elas comigo).

Conte sobre uma história da sua infância.
Quando era criança (com uns 7 anos mais ou menos), adorava caçar e capturar bichos. Colocava os bichos em potes de maionese para poder ficar olhando de perto e em segurança. De formigas, abelhas, besouros, aranhas até peixinhos, que tinham num riacho/esgoto, que passava atrás do condomínio. Era a maior aventura isso de ir “catar peixinhos”, como dizíamos. Teve até uma vez que na idéia de atrair abelhas, colocamos (eu e a molecada) mel em um pote. Acabou virando um enxame que ninguém conseguiu chegar perto.  

Como você espera o futuro?
Se o Apocalipse Zumbi em 2012 não vier, vou ter que mudar de planos... Estejam preparados!
Falando sério, de mim, espero estar fazendo o que eu gosto, cobrindo algum conflito ao redor do mundo. Infelizmente isso nunca vai acabar. Então, “bora trabalhar”!

Meu sonho profissional é cobrir guerras e catástrofes, como o tsunami.
James Nachtwey, um dos maiores fotógrafos de guerra da atualidade, diz que é onde o jornalismo e a fotografia se fazem mais necessários. Eu concordo!

E espero ter um filho e poder dar uma educação legal para ele.

Do mundo, não espero nada. Venha o que vier.

Uma mensagem para deixar para a posteriodade e a prosperidade:
Quero muito - mesmo - que todo mundo seja feliz. Que as pessoas vivam mais, interpretem menos e saibam aproveitar a graça dos detalhes.

Divirtam-se, amiguinhos!

E vejam as minhas fotos:  http://www.flickr.com/photos/muriloribas/